Catarse de fim de ano

Farta disto tudo.
Farta de quem é responsável por publicar seja o que for seja onde for, e o faz na mais relaxada displicência, sem atenção a erros, ortográficos ou tipográficos, mais simples ou mais flagrantes.
Farta dos que dizem “derivado a”, ou dos que começam frases com “dizer que” sem um complemento adequadamente directo a completar a ideia no final. Dos que julgam falar ‘caro’ quando atiram o mal-empregue “o mesmo” ou “a mesma”, - muito recorrente em agentes da autoridade, por alguma misteriosa razão – sem perceberem que com um simples hífen, o verbo e o pronome se tornam suficientemente inteligíveis.
Farta dos que, no meio destes erros absurdos, partilham frases de uma duvidosa metafísica – todas do Einstein ou do Buda – que descerram o sentido da vida, a título da zénitude da moda. Curiosamente - ou talvez não – costumam ser os mesmos que sacodem a água do seu capote, sentenciando todos os que já não caminham em paralelo consigo, porque o Universo – ah! essa entidade omnisciente! – é mais sábio, concluindo que “só nos deixa quem de facto não merecia fazer parte da nossa vida”. O que estas criaturas parecem ignorar – deliberadamente ou apenas porque são cretinas – é que estamos todos na mesma encruzilhada de caminhos, e não podemos ser todos inocentes. Ou será que o Universo tem uma mensagem diferente para os já não nos acompanham? Não levantemos mais dúvidas, deixemos estar tudo assim abafadinho na lógica do “não reflectir sobre os nossos erros e faltas, que a culpa é sempre dos outros”!
Cansada.
Cansada de ver gente burra e tão, tão medíocre, a ter palco, a vender a banha que lhes escorre, profusa, das escamas, escarrapachada em best-sellers dispostos nos escaparates, ao lado dos josé-saramagos e das dulce-maria-cardosos desta vida, como se lá pertencessem! É o que acontece quando a política cilindra a Educação e a Cultura – em poucas gerações, esvaem-se o conhecimento e a capacidade de pensamento crítico.
Farta que, em pleno século XXI, ainda proliferem por aí trogloditas e neandertais a espingardearem o seu ódio merdinha em imprecações fóbicas e racistas - contra todos os sexos e feitios, contra todas as cores e credos, que não os seus, bem entendido. E como se a sua repercussão individual não bastasse, institucionalizam-se em partidos merdinha, conquistando espaço aqui e ali, aos poucos, difundindo a sua mensagem merdinha.
Farta dos espécimes hominídeos androcêntricos que, entre um palitar de dentes e um peidinho, se indignam com a revolução feminina - em curso há anos, com duras batalhas travadas todos os dias, e que nos pertencem a todos porque é de direitos humanos que se trata – arrotando um pestilento “qualquer dia já não se pode sequer…” desvalorizador de todas as agressões machistas, normalizadas desde há já muito tempo – demasiado! - como inofensivas e inocentes. Pois não, neandertal de merda! Já não se pode, nunca se pôde, mas fez-se na mesma! Mas agora acabou, mete as assobiadelas e os piropos ordinários onde o teu proctologista os encontre! Porque nunca ninguém os quis ouvir! Porque o tamanho do meu decote ou o comprimento da minha saia não são, nem nunca foram, um convite à tua depravação! Porque nunca saberás o que é evitar passar naquela rua deserta e escurecida, em que o medo de se ser assaltada é a menor das nossas preocupações! Porque a tua liberdade nunca é consideravelmente restringida, todos os dias, porque a tua integridade física e sexual nunca está potencialmente ameaçada, todos os dias, porque a tua inteligência e competência nunca são postas em causa, todos os dias. Só porque se é mulher. E se séculos disto não exigiram uma revolução, não sei o que o exigirá!
Esgotada que a porra da Humanidade não tenha aprendido merda alguma com a sua própria História. Cansada de ver homens com ogivas grandes e pilas pequenas, a brincar às guerras, a matarem indiscriminadamente os ‘seus’ e os ‘outros’, cegos de poder e bêbados de ambição.
Sem pachorra rigorosamente nenhuma para os ricalhaços – grandes ou mais modestos – a brincarem, não às guerras, mas aos astronautas, uns, ou a encherem avidamente os bolsos, outros, sem o mínimo pejo, em vez de proverem a quem pouco ou nada tem – e quão financeira e moralmente fácil lhes seria fazê-lo – como se fossem levar para a cova tudo o que acumularam, as mais das vezes à custa do suor esforçado dos demais.
E a pièce de résistance: fartinha de andar a brincar, por meu turno, ao planeta verde, separando o lixo como se não houvesse amanhã (de facto, já estivemos mais longe de o não haver - o amanhã, não o lixo…), sem sabermos ao certo quanto do que pomos nos putos dos contentores vai ser de facto reciclado – apenas 30%, li algures – e se isso fará mesmo a diferença ou será mera tarefa inglória, já que, por mais que se tente, quase tudo o que se compra vem cheio de plástico por todo o lado. Não será o alegado processo de transformação e reaproveitamento ele próprio mais poluente? Ainda que aturdida de dúvidas, lá me arrasto para o ponto verde (ou mando a filha, para ser honesta), porque se o não fizer já sei que vai cair o Carmo e a Trindade da culpa ecológica na minha cabeça. Tudo porque os Governos, em vez lidarem com o problema que nos vai matar a todos, apenas se limitam a elaborar medidas com requintes de distorção de valores, pondo o ónus da responsabilidade - que lhes pertence primordialmente, porque foi para isso que os elegemos e lhes pagamos – nos consumidores, empurrando para jusante a poluição, que tem de começar a ser resolvida a montante. Os fabricantes, os produtores, mais a corja de lobbies que os representam, continuam pacificamente a sua actividade sem quaisquer mudanças realmente significativas, enquanto lá vamos nós, todos os dias, alegre e, quiçá, inutilmente, descarregar vidros, papel e plásticos nos ecopontos da nossa angustiada culpa, sem saber se estamos, efectivamente, a poupar o ambiente ou apenas as nossas pesadíssimas consciências…
Vontade não me falta, por vezes, de fazer o checkout derradeiro – sair de fininho desta existência tão viciada e aviltante, tão corrompida e desesperante em que se tornou a condição humana. E reencarnar cão. Ou gato. Ou pássaro. Ou calhau, rodeado por qualquer curso de água límpida, se ainda os houver…
Mas acho que me vou deixar ficar por cá mais um bocadito. Só para ver se esta bodega começa a endireitar-se.
p.s. – outros ódios de estimação:
- as putas das mãozinhas juntas a fazer coraçõezinhos pirosos; não há adulto funcional, merecedor desse título, que se preze, que se preste a tamanha pirosice. Tenham vergonha, mãozinhas para baixo.
- as mamãs babadas que põem o dístico “amo ser mãe” na foto de perfil (talvez mais para se convencerem a si mesmas do que aos outros); como se a sua condição materna carecesse de publicidade, ou como se amar os filhos e odiar ser mãe fosse intrinsecamente incompatível (todas sabemos que não o é, admitam suas fingidas!). Amo a minha filha até à medula, mas há dias em que odeio intensamente ser mãe. E isso não tem nada a ver com ela ou com amá-la. A mãe que sou, ambiciono ou recuso liminarmente ser, é prerrogativa exclusivamente minha, e ninguém tem nada com isso. Nem tenho de me sentir culpada por não me enquadrar num modelo que é bacoco e ultrapassado, já para não dizer absolutamente irrealista. Parem com a propaganda da ‘mãezinha sofredora mas feliz’. Há muito território cinzento que temos de começar a desbravar, para bem da nossa saúde mental, e sim, pela dos nossos filhos também.
- dizer que se “ama” uma comida ou uma peça de roupa ou qualquer merda assim, desvirtuando e pervertendo por completo o valor precioso de uma palavra, que só deve ser entregue a outro ser – humano ou animal -, ou a algo que sublima o sentido da existência e a eleva, como uma música, uma pintura ou escultura, um livro, uma profissão, um espectáculo, seja num palco ou num ecrã, seja bailado ou representado. Para tudo o resto, gostar muito ou, vá, na loucura, adorar, chega e sobra.
- a malta famosa/célebre/ou só mais ou menos conhecida que se exibe a fazer exercício físico, seja qual for a actividade escolhida para o efeito, e, de estopinhas bem suadas, publicitam que os resultados compensam largamente o esforço, que mente sã em corpo são é que é, e outras estuchas do género. Parem com essa merda. É tudo mentira. Vocês não fazem esforço algum, vocês gostam mesmo de puxar pelo cabedal, quase se vêm à noite a pensar no que vão suar de manhã no ginásio. As vossas endorfinas funcionam. Parabéns. Não acontece a todos. Se gostam e se vos dá prazer, não é difícil nem representa sacrifício. Parem de agir como se fosse e fazer o resto de nós sentir-se calão ou derrotado pela falta de força de vontade. Falsos.
- continuando no povo célebre e famoso, os que dão a cara por causas de beneficência, apelando ao contributo monetário. Ou seja, ricos a pedirem aos pobres dinheiro para os mais pobres ainda. Eh pá, dêem vocês que ganham mais do que eu.
Assim de repente, não me lembro de mais nada…
Bom Ano Novo.
Texto escrito no final do ano de 2022. Deixem nos comentários os vossos ódios de estimação e participem da catarse!