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Antagonismos – ou as coisas que me indispõem...

Para ventilar os pulmões e lavar os fígados de toxinas.

Antagonismos – ou as coisas que me indispõem...

Para ventilar os pulmões e lavar os fígados de toxinas.

Foto de VAZHNIK no Pexels

 

Cada vez compreendo menos este mundo. Do micro ao macro, tudo parece estar a desabar, a desestruturar-se, enquanto todos assistimos – incrédulos e revoltados uns, a bater palmas com cretino e ignorante gáudio outros.

E alguns, pelo meio, a encolherem os ombros, puxando as palas mais para baixo, de modo a prosseguirem as suas vidinhas, como se de nada do que explode à sua volta lhes dissesse respeito.

Mas diz-nos respeito, e a todos. Mesmo quando escolhemos ignorar.

Do micro ao macro – um choque em cadeia de milhares de circuitos de dominó, diminutos e ininterruptos, que fazem tombar um gigantesco castelo de cartas,. O choque a cada dia, nos noticiários, nos memes que já não são para fazer rir, nas conversas de café, ou seja, hoje em dia, nos comentários nas redes sociais. A realidade cada vez mais perto e mais distante ao mesmo tempo.

Diz-nos respeito a estupidez de um presidente, que se crê uma espécie (deturpada e perversa) de um herói justiceiro, que apenas persegue os frágeis, rouba os pobres, e retrocede o progresso dos direitos humanos em décadas. Não é novidade: a caça às bruxas é recorrente na terra do tio Sam, desde Salem. Mas as suas repercussões estão hoje a atingir máximos históricos. Os americanos MAGA podem chamar-lhe muitas coisas, mas esta sede de hegemonia, esta fome de poder e controlo, nutridas pela força bruta da repressão e da censura, sabemos bem qual é o seu nome: fascismo. A nuance talvez mais inédita e retorcida, é chamarem a essa propaganda autocrática e manipuladora de “liberdade de expressão”!

Invadir países e tentar lá espetar uma bandeira, aniquilar vizinhos incómodos, também não é novidade, já vimos isto. Há 500 anos, era colonialismo. Agora, sabemos bem que não passa de imperialismo fascista. E, no caso da Rússia, muito saudosista dos tempos obscuros da União Soviética, nesta sua ofensiva bélica à Ucrânia, anacrónica, incompreensível e aviltante.

Mais incompreensível e aviltante ainda, quando é um acto perpetrado por um povo que foi, ele próprio, alvo de tentativa de extermínio. Como é possível não terem aprendido com a sua própria experiência? Como é possível que cometam os mesmos actos bárbaros e incompassivos? Como é possível terem em si as mesmas intenções genocidas? Por mais que aleguem defesa com justa causa contra o terrorismo, não há nada que justifique um ataque desproporcionado, que já matou milhares de inocentes civis, especialmente crianças. Como podem as crianças ser terroristas?

Sabemos o que é, continua a ser fascismo.

O fascismo começa (ou recomeça) pequenino. É um gnomozinho vagamente irritante, com uma vozinha estridente, que vamos ignorando. É tão pequenito, que mal pode ele fazer?

E seguimos as vidinhas, ignorando.

Ignoramos quando vemos a vizinha com nódoas negras no rosto. Dizemos “bom dia” e seguimos caminho. Não é da nossa conta, não queremos problemas. Quando ela aparecer morta, com uma facada no coração partido, calamos o espanto e varremos o peso poeirento das nossas consciências.

Ignoramos quando vemos indivíduos inúteis, a viver da ilusão de um estrelato oco, mas que influenciam e agarram a atenção de milhares. Vendem a pólvora como se a tivessem acabado de descobrir; dão conselhos de saúde irresponsáveis, fazendo tábua rasa dos mais básicos factos científicos; fazem piadas com o atropelo e fuga de transeuntes sem notarem o atropelo e fuga da própria inteligência! Ávidos da fama pela fama, regurgitam as ideias mais preconceituosas e execráveis, transfóbicas, homofóbicas, xenófobas, misóginas, machistas, violentas, arrastando consigo, nessa enxurrada de ódio, as mentes ainda verdes e impressionáveis de milhares de adolescentes, e também de alguns adultos, menos verdes mas igualmente influenciáveis.

Ignoramos quando nas escolas, ou numa dada escola, para ser mais exacta, há um director medíocre, que se acha acima das regras legais, e pode simplesmente plagiar um documento, que era sua obrigação fornecer atempadamente ao Conselho Geral, que o supervisiona. Conselho Geral esse, que vê essa falha grave como um “mal menor”, mesmo que vindo de quem deveria ser um exemplo de rectidão e honestidade para os alunos, apenas porque “toda a gente copia o seu bocadito”! Que moral terão estes professores para censurar os alunos que copiam? Sucedeu numa escola do Alto Minho, mas situações semiburlescas como esta, acontecem todos os anos lectivos em muitas escolas, e a comunidade, até mesmo quando está informada, escolhe ignorar.

Ignoramos quando juízes, declaradamente machistas, libertam, com penas suspensas, abusadores e agressores de mulheres, forçando as vítimas directas a uma existência de medo constante, e as indirectas a conviverem com criminosos, apenas porque são os seus progenitores. Há gerações de crianças que vão crescer traumatizadas pela exposição à violência e convívio forçado com os que a executaram, sem pejo, à sua frente; centenas de mulheres (e não apenas mulheres, é claro!) que vivem em pânico constante, até ao dia em que o seu maior pesadelo se concretiza.

Se ignoramos e toleramos esta violência recorrente e constante sobre as mulheres no nosso país, a que existe em países distantes – e alguns até inscrevem essa violência nas suas próprias leis! – nem sequer nos tira o sono à noite!

Enquanto as nossas consciências dormentes escolhiam fechar os olhos e ignorar, o pequeno gnomo cresceu e é hoje um ogre, feio, belicoso, mentiroso, que alcançou e recrutou inúmeros ogrezinhos lacaios. Já não tem um gritinho dissonante, berra as suas imprecações e mentiras em voz alta.

O tempo de ignorar e seguir caminho com um assobio indiferente, terminou. Temos todos de acordar! Do micro ao macro, temos de acordar as consciências e reagir com empatia, a cada injustiça, a cada mentira, a cada acto de ódio.

Já não podemos dar-nos ao luxo de não usarmos activa e explicitamente a nossa consciência.

Sob pena de sermos mais um cromo nesta caderneta socialmente disfuncional e retrógrada. Sob pena de sermos engolidos pelo ogre, qualquer que seja o seu nome, Hitler, Trump, Putin, Netanyahu, ou Ventura.

Sob pena de estarmos a contribuir, por negligência, para esta triste sociedade dos nulos.

 

A Sociedade dos Nulos - Reel

 

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