O grande 'D'

Sei que ninguém me perguntou. Mas se eu estivesse à espera que me perguntassem sobre os temas que aqui escrevo, este blog nunca teria visto a luz do dia digital. Ninguém me pediu esta minha opinião, mas eu vou dá-la na mesma.
Hoje, vou falar de um tema delicado, potencialmente controverso, desolador para uns, determinante para outros. Hoje venho falar sobre o grande “D”, ou seja, Deus.
Para começo desta sensível conversa, convém esclarecer a minha posição. Eu não acredito em Deus – tanto não acredito que tenho tendência a omitir a consagrada maiúscula e a escrever “deus”; mas hoje farei uma cedência, à guisa de garantia de que este artigo não pretende ofender ninguém, nem sequer beliscar as crenças particulares de seja quem for. Não acredito em Deus, mas sou crente confessa no respeito, a par da liberdade de expressão e opinião.
Tal como a maior parte dos portugueses da minha geração (nasci em 1975), fui ensinada a acreditar em Deus na infância, sem queixas nem questionamentos. Bom, protestei um bocado por ter sido obrigada a ir à catequese e a fazer a primeira comunhão, mas até isso ocorreu sem grandes alaridos: afinal, a catequese não passou das histórias da bíblia que a catequista nos contava, e sobre as quais fazíamos um desenho no fim, e a primeira comunhão até foi um evento divertido, em que todas nós, as meninas, nos sentíamos como noivas vaidosas rumo ao altar, mas sem a chatice do noivo à espera, apenas nos esperava uma hóstia, que devorámos, lambareiras, completamente esquecidas de reflectir em Cristo como a Detinha (a catequista) nos tinha recomendado.
Na minha infância, acreditar em Deus era um dado adquirido e pacificamente aceite, sem pensar nem contestar. A contestação viria mais tarde – talvez por culpa das aulas de filosofia, e em particular de Nietzsche. Durante a minha juventude e razoável parte da idade adulta, questionei a crença na existência de Deus, ao ponto de Este morrer para mim, como profetizado pelo germânico filósofo.
Contudo, voltei a acreditar numa fase mais avançada, durante algum tempo, até perceber que essa crença deixara, novamente, de existir em mim.
É possível que venha a mudar, uma outra vez, de ideias? Talvez. Mas essa é mesmo a questão. Para mim, acreditar em Deus, não é uma resolução racional, seja ensinada por outros, ou decidida por vontade individual. Acreditar em Deus, quanto a mim, é, acima de tudo, um sentimento. Se o sentimento não está lá, nada há a fazer. E nos sentimentos, por mais que queiramos, não somos nós a mandar.
Mas vamos por partes. Peguemos, primeiro, nos conceitos de fé e de espiritualidade. Sou da opinião de que todos nascemos com o sentimento de fé e de espiritualidade, que estes fazem parte da nossa condição não só humana, mas essencialmente de seres vivos – quem somos nós para garantir que os animais são desprovidos de fé e de espiritualidade?
Desde a nossa ancestralidade, manifestámos em monumentos e linguagem pictórica, a nossa relação com o cosmos e com o desconhecido – o mistério da vida e da morte –, com o sentimento maior da fé em algo que nos é tão imanente quanto transcendente. Muito antes de existirem as religiões e cultos, existia esse sentimento de pertença e confiança perene no presente e no devir: Stonehenge, os moais da Ilha de Páscoa, os monumentos megalíticos (antas, menires, cromeleques), totens, pinturas rupestres. Da Europa à Ásia, de África à Oceânia, do Índico ao Pacífico.
Nascemos, pois, com o sentimento de fé e de espiritualidade embutidos. Um sentimento capaz de gerar uma força tão poderosa, que logo surgiu na história da humanidade quem o quisesse dominar. Assim nasceram as religiões (muito simplificadamente, claro).
O que as religiões, no geral (e a religião católica, em particular), nos fizeram, foi convencer-nos de que a nossa fé e espiritualidade só se concretizam num sistema de crença institucionalizado. Convenceram-nos de que o seu Deus encerra em si todo o significado e propósito de fé e de espiritualidade, e que estas não podem existir sem Ele – na verdade, sem elas. Esta é, quanto a mim, a maior falácia que uns seres humanos impuseram a outros.
Em nome d’Ele, debitaram regras, costumes, constrangimentos, medos, louvores, benesses, ameaças, milagres, e até se fizeram (e fazem) guerras.
Falam de Deus e da Sua vontade divina, mas o que fazem de facto tem mais a ver com a sua ambição, bem terrena, de poder e controlo, do que com Ele.
Sei que estou a generalizar, e não devo, pois não conheço todas as religiões do mundo, obviamente. Portanto, se quiserem, mantenham em mente que me refiro essencialmente à Igreja Católica (que conheço bem), e às que, eventualmente, daí advieram, e que mantêm um discurso assente na teologia cristã clássica e na bíblia, com poucas variações ou divergências da “casa-mãe”.
Mas entre crentes e descrentes, há coisas que nunca entendi.
Por exemplo, pegando no conceito controverso do criacionismo vs. evolucionismo: sempre achei (até mesmo quando cria em Deus) que a separação obliterante entre o criacionismo e o evolucionismo não fazia qualquer sentido! E nunca percebi a posição dos crentes, por um lado, que não são capazes de considerar a evolução da espécie e os factos científicos como decorrentes também da vontade de Deus, que, segundo os próprios, tudo criou (inclusivamente a ciência e os cientistas!), nem a dos cientistas, pelo outro, pois a base do conhecimento científico é que as hipóteses podem ser validadas ou rejeitadas a qualquer momento, logo nenhum conhecimento é categórico e inquestionável. Esta radicalização das posições nunca traz nada de construtivo. Com um pouco de boa vontade, com certeza poderiam chegar todos a um consenso, não? Pelos vistos, não.
Cristalizar um conceito como verdade eterna, absoluta e incontestável, é parar de evoluir. Acredito que estamos neste mundo para isso, para aprendermos e evoluirmos. Sermos melhores hoje que ontem, e piores que amanhã. Eu sei, é um chavão, mas que querem? É o que acho!
Outra coisa que sempre me deu que pensar é o conceito de livre-arbítrio, com o qual Deus nos criou (pelo menos, foi o que aprendi na catequese!).
Se Deus nos criou e nos fez pessoas com livre-arbítrio, não foi, digo eu!, para que seguíssemos cegamente credo algum, nem tampouco para O adorarmos em ajoelhada contemplação. E decerto não foi para aceitarmos explicações de empirismo duvidoso e de lógica redundante. Foi para pensarmos, para investigarmos, descobrirmos a verdade de cada milímetro quadrado deste maravilhoso planeta. Não para aceitarmos qualquer alegado saber sem provas nem questionamentos – onde está o livre-arbítrio disso?
Os católicos socorrem-se do conceito de livre-arbítrio para justificar os males do mundo, apenas provindos da autodeterminação perversa dos homens, e não de qualquer falta divina. “O que está errado no mundo, não é por culpa de Deus, mas por nossa, dos pecadores com livre-arbítrio”. Mas se o livre-arbítrio serve para justificar o mal, então tem também tem de servir para pensarmos no bem, e percebermos que as atrocidades cometidas pela Igreja Católica ao longo de séculos, em pretenso nome de Deus, não foram para O servir, mas sim para se servirem. Quem? Papas, bispos, cardeais, e outros beneficiários de bastidores. Angariam dinheiro, amealham fortunas. O Vaticano é um estado independente dentro de um país, mas não se rege pelas leis italianas, mas por legislação própria. Os crimes lá cometidos, são lá julgados interpares, sem obedecer a mais nenhum rigor jurídico que os da Santa Madre Igreja. Como pode isto ser legítimo? E já nem sequer falo das contas bancárias nem dos impostos que não pagam...
Têm poder, exercem controlo, e, impondo o temor a Deus, dominam as mentes dos crentes, abusando da sua fé e espiritualidade autóctones. Têm fortunas, vivem em palácios, mas pedem dinheiro aos pobres para ajudar os mais pobres ainda, abusando da solidariedade e fraternidade do seu rebanho. Acobertam os pecadores entre eles, que violaram crianças ao longo de anos, oferecendo a esmola de uma indemnização monetária, mas com prazo contado – coisa que os traumas dos abusados não têm, porque vão durar para sempre.
Isto não é sobre a fé, nem espiritualidade. Nem é sobre Deus algum. Isto é sobre a ambição suja, feia, perversa, de um punhado de homens, que se sentam num trono vestidos de branco, mas com as mãos manchadas de sangue. A nossa fé e espiritualidade não lhes pertence, não lhes diz respeito nem carece deles. Nem sequer a crença em Deus, seja que Deus for.
Mas são milhões os que seguem os seus preceitos ditatoriais: alguns, por doutrinação longa de que a sua fé e espiritualidade lhes pertence; outros porque são feitos do mesmo barro podre e aviltante.
Se eu estou errada na minha falta de sentimento, e Deus existe, não pode ser este Deus que apregoam. Não pode ser um Deus que exige que matem inocentes em seu nome. Não pode ser um Deus que se alimenta do sofrimento e das dores de tantos, ditando que se resignem à sua condição sofredora e orem. Não pode ser um Deus vingativo, que castiga quem erra e falha. Não pode ser um Deus que escolhe um povo e condena os outros à morte. Não pode ser um Deus que te ajuda a passar no exame de condução, mas deixa milhares de crianças a morrer de fome.
Esse é o Deus dos vis, que só sentem ódio. Não é o dos que têm fé e espiritualidade, porque estes sentem amor.
Posso não ter o sentimento de Deus em mim, mas isso não me torna a alma vazia. Tenho o sentimento da fé – que é maior do que a mera esperança – e tenho a minha espiritualidade – que é mais profunda do que a devoção. Talvez isso, afinal de contas, seja o mesmo que Deus.