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Antagonismos – ou as coisas que me indispõem...

Para ventilar os pulmões e lavar os fígados de toxinas.

Antagonismos – ou as coisas que me indispõem...

Para ventilar os pulmões e lavar os fígados de toxinas.

A saudade é portuguesa - Antagonismos.jpg


Há umas quantas semanas, deparei-me com uma publicação de uma página em inglês no Facebook, que rezava assim: 
Saudade – (n.) a nostalgic longing to be near again to something or someone that is distant, or that has been loved and then lost; “the love that remains”. [Art of Poets].

Traduzido, o texto diz algo como isto: Saudade – um desejo nostálgico de voltar a estar perto de algo ou de alguém que está distante, ou que foi amado e depois perdido; “o amor que persiste”.

Nos comentários, alguém notou “that’s a Portuguese word” (é uma palavra portuguesa), e logo um outro alguém lhe replicou “that’s a Portuguese feeling!” (é um sentimento português!). Contemplei e reflecti sobre estas palavras, e vi-me obrigada a concordar: a saudade não é uma palavra portuguesa – ela é, de facto, portuguesa!

Como seria de esperar, os falantes nativos de português não deixaram de comentar, tentando aprimorar o real sentido da palavra, que a definição em inglês tanto deixara a desejar. Alguns mais próximos, outros menos exactos, os conceitos que esta palavra única abarca são múltiplos e intensos, tanto quanto a multiplicidade das experiências de cada um destes comentadores, que cresceram e criaram a sua rede neurológica de afectos dentro da língua portuguesa (embora não só).

Mas mais do que ser uma palavra portuguesa, o que de facto importa compreender é que o sentimento que expressa é intrinsecamente português.

A saudade é endémica ao ADN português. Daí que por onde os portugueses tenham passado e se estabelecido – tenha sido por imperialista ocupação ou esperançosa e/imigração – o gene tenha deixado as suas marcas.

Todos os povos nascidos e criados da lusofonia compreendem, na sua essência, a palavra e também a profundidade muito mais que meramente léxica do sentimento.

Contudo, a mistura de que resultam tantas maravilhosas gentes, inclui outras adições que, felizmente para eles, diluiu a traça triste da saudade lusa.

Pensemos, por exemplo nos brasileiros, que são os maiores porta-vozes da língua portuguesa e os professores privilegiados do português que o resto do mundo tem interesse em aprender – e como não o seriam? Como fazer face a mais de 200 milhões de falantes? Os brasileiros ensinaram, de facto, ao mundo a palavra saudade. Vi, na publicação referida, comentários de falantes de outros idiomas, que já aprenderam português, a ensinar a quem perguntava que a palavra se pronuncia “sow-da-j”, numa óbvia versão brasileira da língua.

Vi também, muitos brasileiros a contribuírem, e bem, para o apuramento do conceito.

Mas não misturemos as águas. De saudade, sabemos nós. Aliás, os portugueses inventaram o conceito.

A saudade brasileira – sem desprimor para a sua bela forma de a expressar – é demasiado gingona para ser verídica, pois não mergulha na profundidade séria e crua que o sentimento exige.

Não. A saudade é portuguesa. Saudade é Amália. É Maro. É Pessoa. É Florbela.

A saudade não se timbra na cuíca – esta é mais riso que choro.

Ela flui nos acordes saídos dos dedos de Paredes.

A saudade é triste. É dor. É mágoa. É perda. É sofrimento.

Reconheço que, neste tom mais doído, a Cesária Évora até chegou lá perto. Mas a sua morna é demasiado doce e cálida para ser uma integral mensageira da saudade. A saudade não é nem aconchego nem calor. A saudade é uma lâmina fria que se atravessa na garganta e trespassa o coração.

A saudade é o que sustém a memória. Sem saudade, a memória é só pensamento antigo.

A saudade nasceu na costa portuguesa, nas areias da praia, onde as ondas levaram os pais, os maridos e os filhos da orla de onde as mulheres e as mães acenaram. A saudade cresceu nos montes raianos de onde tantos partiram “a salto”, e tantos nunca mais regressaram.

A saudade é portuguesa e é mulher. A saudade saiu-lhes do ventre e tomou-lhes conta da alma, para sempre.

Minhota, insular, transmontana, algarvia. De costa a costa, de monte a vale, a saudade arrepia caminho na geografia da alma portuguesa. Nas preces murmuradas à Srª da Agonia, no embalo do cante alentejano, no silêncio verde e azul das lagoas açorianas – a saudade habita todos os nossos recantos, e todos os olhares portugueses se unem no mesmo entendido sentir.

Talvez seja esta a única verdadeira herança, o único verdadeiro marco identitário para toda a lusofonia – tão profundo que já nem nos lembrámos ao certo da sua origem. Mas esta existe e é portuguesa.

E não há qualquer orgulho nisso. Que a saudade não é orgulho. A saudade é só tristeza.

 

«A saudade é portuguesa» - Reel